passa-a-bola-ó-ronaldo
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passa-a-bola-ó-ronaldo
O fenómeno da identificação ou a assunção da mediocridade
https://s32.postimg.org/n9gy79df9/euro2016.png
Tous les drapeaux ont été tellement souillés de sang et de merde
qu’il est temps de n’en plus avoir, du tout
Gustave Flaubert
.
O patriotismo é, de todas as faces da estupidez, a mais enigmática e inquietante. A mais em forma de assim. Trata-se de uma forma de estupidez particularmente virulenta porque achaca em simultâneo quantidades apreciáveis de pessoas. Um fenómeno de massas, portanto.
Como já referi algures neste blogue, trata-se de um fenómeno que, através da propaganda, transforma pessoas sem qualquer brio individual ou qualidades cívicas notórias numa turba cheia de auto estima, convictamente consciente dos supostos valores da sua hereditariedade. E quanto mais grunhos, impreparados e civicamente amorfos forem os indivíduos, mais ululante se torna o fervor colectivo. Em geral isto é perpetrado por motivos esconsos mais ou menos óbvios, mas sempre inconfessados.
.
Isto é facilmente observável, por demais evidente, na Europa das nações e no seu campeonato de futebol. Todos os povos projectam na sua selecção nacional aquilo que presumem ser a súmula dos seus valores nacionais e exigem que ela reflicta com orgulho o que os identifica. Assim, os russos são obstinados, os alemães metódicos, os franceses ousados, os italianos são pragmáticos, os croatas fantasistas, os romenos temperamentais, os suíços são neutros, os ingleses fleumáticos, os espanhóis tiquitaca, os irlandeses são doidos, os suecos nórdicos, os turcos explosivos e os islandeses um caso à parte (os galeses não são tão fleumáticos como os ingleses nem tão doidos como os irlandeses).
.
Ou seja, as equipas acabam sempre por corresponder à ideia que os povos fazem de si mesmos. Salvo os portugueses, que não sei bem o que são; ou o que julgam que são. A julgar pelo desempenho da sua selecção (a equipa não joga puto, não vence um jogo em cinco) deduzo que não sejam grande coisa. Mas eles não se importam com isso, pelo contrário - estão plenamente identificados com ela. O orgulho nacional português, a cagança, está ao rubro (e ao verde, claro). E redobra de intensidade a cada um dos seus vitoriosos empates.
.
Ora o futebol é um jogo e, como tal, um divertimento. A vitória é consequência natural do melhor desempenho - isto é, sorri sempre ao que melhor joga que é, em simultâneo, quem mais se diverte; e quanto mais categórica e indiscutível for a vitória, além da glória obtém também, invariavelmente, o respeito dos vencidos. Isto é elementar de tão simples. Mas não para os portugueses.
.
Para os portugueses o futebol não é um jogo simples, nem um divertimento. É uma ciência oculta. Um esquema mental obscuro, entre a lógica e a irracionalidade, que se socorre de uma estranha matemática (com mais incógnitas que soluções) na fase de grupos e da mais bizarra religiosidade nos jogos do matamata - o qu’eles rezam, putaquepariu, bichanando como as velhas, na lotaria dos pénaltes.
Em Portugal ninguém vai à bola para se divertir, nem espera isso dos jogadores. O estádio é, para eles, um campo santo, o dos “mártires da Pátria”. Espera-se (exige-se) dos jogadores “espírito de sacrifício” , “saber sofrer”, “marchar contra os canhões” e outras merdas do mesmo jaez.
- O futebol é, para os portugueses, na praia ou no sofá, uma filosófica dilaceração, uma espécie de teologia do sofrimento.
- O técnico da selecção é um demiurgo veterano, um sábio, um cérebro que parece que está sempre com dor de barriga cuja táctica é passa-a-bola-ó-ronaldo e a estratégia é levar isto próspenaltes, caralho.
- A equipa, crestiano & as dez ronaldetes, é a risota de toda a Europa. Entra em campo a benzer-se ao pé coxinho com tanta vontade de não perder que se esquece do mais elementar: jogar à bola. Por isso, vão tentando freneticamente passar-a-bolóronaldo, enquanto esperam pla hora das penalidades.
.
Apesar disso, nos media, nas redes sociais, nas ruas, o espectáculo é delirante: quanto mais pífio o jogo da equipa e mais nulo o resultado mais cresce o fervor patriótico dos portugueses. O patriotismo estremece as avenidas, rechina plas vielas, escorre, viscoso, dos televisores. Estarrece. Quase tanto como o entusiasmo da juventude alemã pel’aviação sem motor. Mas igualmente revelador: este incrível e patusco processo de identificação dos portugueses com a sua selecção é também, receio, a assunção sem complexos da qualidade que melhor os define, a sua verdadeira identidade.
.
Assim, o jogo de hoje com o país de Gales pode ser um alívio para mim; ou o meu pior pesadelo: a muita séria possibilidade do triunfo - para todo o mundo ver, na final - da mais mesquinha mediocridade.
Os corações dos portugueses já estão ao alto. O meu é que não sei se aguenta.
http://ositiodosdesenhos.blogspot.pt/20 ... ao_15.html
Nota: O que eu me ri a ler isto...pura verdade.
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Gustave Flaubert
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O patriotismo é, de todas as faces da estupidez, a mais enigmática e inquietante. A mais em forma de assim. Trata-se de uma forma de estupidez particularmente virulenta porque achaca em simultâneo quantidades apreciáveis de pessoas. Um fenómeno de massas, portanto.
Como já referi algures neste blogue, trata-se de um fenómeno que, através da propaganda, transforma pessoas sem qualquer brio individual ou qualidades cívicas notórias numa turba cheia de auto estima, convictamente consciente dos supostos valores da sua hereditariedade. E quanto mais grunhos, impreparados e civicamente amorfos forem os indivíduos, mais ululante se torna o fervor colectivo. Em geral isto é perpetrado por motivos esconsos mais ou menos óbvios, mas sempre inconfessados.
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Isto é facilmente observável, por demais evidente, na Europa das nações e no seu campeonato de futebol. Todos os povos projectam na sua selecção nacional aquilo que presumem ser a súmula dos seus valores nacionais e exigem que ela reflicta com orgulho o que os identifica. Assim, os russos são obstinados, os alemães metódicos, os franceses ousados, os italianos são pragmáticos, os croatas fantasistas, os romenos temperamentais, os suíços são neutros, os ingleses fleumáticos, os espanhóis tiquitaca, os irlandeses são doidos, os suecos nórdicos, os turcos explosivos e os islandeses um caso à parte (os galeses não são tão fleumáticos como os ingleses nem tão doidos como os irlandeses).
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Ou seja, as equipas acabam sempre por corresponder à ideia que os povos fazem de si mesmos. Salvo os portugueses, que não sei bem o que são; ou o que julgam que são. A julgar pelo desempenho da sua selecção (a equipa não joga puto, não vence um jogo em cinco) deduzo que não sejam grande coisa. Mas eles não se importam com isso, pelo contrário - estão plenamente identificados com ela. O orgulho nacional português, a cagança, está ao rubro (e ao verde, claro). E redobra de intensidade a cada um dos seus vitoriosos empates.
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Ora o futebol é um jogo e, como tal, um divertimento. A vitória é consequência natural do melhor desempenho - isto é, sorri sempre ao que melhor joga que é, em simultâneo, quem mais se diverte; e quanto mais categórica e indiscutível for a vitória, além da glória obtém também, invariavelmente, o respeito dos vencidos. Isto é elementar de tão simples. Mas não para os portugueses.
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Para os portugueses o futebol não é um jogo simples, nem um divertimento. É uma ciência oculta. Um esquema mental obscuro, entre a lógica e a irracionalidade, que se socorre de uma estranha matemática (com mais incógnitas que soluções) na fase de grupos e da mais bizarra religiosidade nos jogos do matamata - o qu’eles rezam, putaquepariu, bichanando como as velhas, na lotaria dos pénaltes.
Em Portugal ninguém vai à bola para se divertir, nem espera isso dos jogadores. O estádio é, para eles, um campo santo, o dos “mártires da Pátria”. Espera-se (exige-se) dos jogadores “espírito de sacrifício” , “saber sofrer”, “marchar contra os canhões” e outras merdas do mesmo jaez.
- O futebol é, para os portugueses, na praia ou no sofá, uma filosófica dilaceração, uma espécie de teologia do sofrimento.
- O técnico da selecção é um demiurgo veterano, um sábio, um cérebro que parece que está sempre com dor de barriga cuja táctica é passa-a-bola-ó-ronaldo e a estratégia é levar isto próspenaltes, caralho.
- A equipa, crestiano & as dez ronaldetes, é a risota de toda a Europa. Entra em campo a benzer-se ao pé coxinho com tanta vontade de não perder que se esquece do mais elementar: jogar à bola. Por isso, vão tentando freneticamente passar-a-bolóronaldo, enquanto esperam pla hora das penalidades.
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Apesar disso, nos media, nas redes sociais, nas ruas, o espectáculo é delirante: quanto mais pífio o jogo da equipa e mais nulo o resultado mais cresce o fervor patriótico dos portugueses. O patriotismo estremece as avenidas, rechina plas vielas, escorre, viscoso, dos televisores. Estarrece. Quase tanto como o entusiasmo da juventude alemã pel’aviação sem motor. Mas igualmente revelador: este incrível e patusco processo de identificação dos portugueses com a sua selecção é também, receio, a assunção sem complexos da qualidade que melhor os define, a sua verdadeira identidade.
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Assim, o jogo de hoje com o país de Gales pode ser um alívio para mim; ou o meu pior pesadelo: a muita séria possibilidade do triunfo - para todo o mundo ver, na final - da mais mesquinha mediocridade.
Os corações dos portugueses já estão ao alto. O meu é que não sei se aguenta.
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Nota: O que eu me ri a ler isto...pura verdade.
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chorao
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
Compreender e conhecer os nosso próprios defeitos, aceita-los e fazer deles vantagens é sinal de inteligência e prosperidade pessoal.
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bruno065
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
Onde é que ponho o gosto nesse post???
Tanta verdade em tao poucos parágrafos...
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j_verne
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
Pessoalmente, não me identifiquei nada com o texto...


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Farfalho
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
Hahaha muito bom
Enviado com aprovação Jacques Cousteau
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PauloAns
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
:clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap: :clap:
por um lado quero que a selecção ganhe para muitos poderem ter uma hora de felicidade, ainda que efémera e inútil... por outro, temo as consequências do que esta alegria vai mascarar.
eu, ainda assim, festejo uns 15 minutos depois do jogo se ganharmos... e desligo a televisão, que fica impossível de ver os canais portugueses.
por um lado quero que a selecção ganhe para muitos poderem ter uma hora de felicidade, ainda que efémera e inútil... por outro, temo as consequências do que esta alegria vai mascarar.
eu, ainda assim, festejo uns 15 minutos depois do jogo se ganharmos... e desligo a televisão, que fica impossível de ver os canais portugueses.
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chorao
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
Ela cá canta finalmente, mesmo sem passar a bola ao Ronaldo. Mostra um pouco daquilo que são feitos os portugueses: muito esforço e sofrimento. Mais do que mandar atuardas para o ar é fazer por isso. Tenho um pouco de orgulho em ser medíocre pois, como se vê, esses também conseguem ganhar.
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forunista
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
Quando eu emigrei senti mais à flor da pele o que era a saudade do meu país.
Se para nós que nascemos cá, fomos criados cá e vivemos cá, sentimos orgulho quando vemos um português ganhar alguma coisa, isso é ampliado 10x quando se trata de um emigrante. Qualquer objecto ou momento que vemos num país estrangeiro, que faça lembrar Portugal, invade-nos um sentimento de saudade e de orgulho que só quem passa por ele é que sabe.
Qualquer português tem orgulho em sê-lo ! Cada um expressa o seu patriotismo à sua maneira. Gritando "Portugal" quando vencemos um jogo, sorrindo quando vemos os nossos atletas ganhar medalhas, sonhando quando o nosso partido foi para o governo e temos a confiança de que a vida vai melhorar, saboreando um belo cozido à portuguesa, usufruindo das nossas belas praias, visitando as nossas belas cidades e locais mágicos.
Pensar que alguém é mais patriótico do que outra pessoa só porque salta mais alto ou grita mais alto, é não saber o significado de patriotismo.
Eu amo o meu país e como é natural, quero o melhor para ele e para quem vive nele. Isto é o mais importante.
Só que há uma coisa que não podemos esquecer: O futebol é um jogo e um jogo é divertimento. Torna-nos felizes quando ganhamos, mas em nada altera a nossa condição de vida. Hoje tive de acordar à mesma hora, vir para o mesmo sitio, fazer as mesmas coisas.
Se para nós que nascemos cá, fomos criados cá e vivemos cá, sentimos orgulho quando vemos um português ganhar alguma coisa, isso é ampliado 10x quando se trata de um emigrante. Qualquer objecto ou momento que vemos num país estrangeiro, que faça lembrar Portugal, invade-nos um sentimento de saudade e de orgulho que só quem passa por ele é que sabe.
Qualquer português tem orgulho em sê-lo ! Cada um expressa o seu patriotismo à sua maneira. Gritando "Portugal" quando vencemos um jogo, sorrindo quando vemos os nossos atletas ganhar medalhas, sonhando quando o nosso partido foi para o governo e temos a confiança de que a vida vai melhorar, saboreando um belo cozido à portuguesa, usufruindo das nossas belas praias, visitando as nossas belas cidades e locais mágicos.
Pensar que alguém é mais patriótico do que outra pessoa só porque salta mais alto ou grita mais alto, é não saber o significado de patriotismo.
Eu amo o meu país e como é natural, quero o melhor para ele e para quem vive nele. Isto é o mais importante.
Só que há uma coisa que não podemos esquecer: O futebol é um jogo e um jogo é divertimento. Torna-nos felizes quando ganhamos, mas em nada altera a nossa condição de vida. Hoje tive de acordar à mesma hora, vir para o mesmo sitio, fazer as mesmas coisas.
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chorao
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Re: passa-a-bola-ó-ronaldo
Tenho orgulho em ti por mostrares neste post o que é ser português. Esta taça é tão mais para eles (portugueses pelo mundo) do que é para nós.forunista Escreveu:Quando eu emigrei senti mais à flor da pele o que era a saudade do meu país.
Se para nós que nascemos cá, fomos criados cá e vivemos cá, sentimos orgulho quando vemos um português ganhar alguma coisa, isso é ampliado 10x quando se trata de um emigrante. Qualquer objecto ou momento que vemos num país estrangeiro, que faça lembrar Portugal, invade-nos um sentimento de saudade e de orgulho que só quem passa por ele é que sabe.
Qualquer português tem orgulho em sê-lo ! Cada um expressa o seu patriotismo à sua maneira. Gritando "Portugal" quando vencemos um jogo, sorrindo quando vemos os nossos atletas ganhar medalhas, sonhando quando o nosso partido foi para o governo e temos a confiança de que a vida vai melhorar, saboreando um belo cozido à portuguesa, usufruindo das nossas belas praias, visitando as nossas belas cidades e locais mágicos.
Pensar que alguém é mais patriótico do que outra pessoa só porque salta mais alto ou grita mais alto, é não saber o significado de patriotismo.
Eu amo o meu país e como é natural, quero o melhor para ele e para quem vive nele. Isto é o mais importante.
Só que há uma coisa que não podemos esquecer: O futebol é um jogo e um jogo é divertimento. Torna-nos felizes quando ganhamos, mas em nada altera a nossa condição de vida. Hoje tive de acordar à mesma hora, vir para o mesmo sitio, fazer as mesmas coisas.